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La machine et la main à écrire

Reçu ce matin, une bonne nouvelle, mon ami Jose Geraldo (Université Aveiro) a terminé sa thèse à propos des relations et des incidences productrices de sens et de forme entre l'écriture et les "machines" à produire de l'écriture...

Il m'envoie une référence à un de mes poèmes-récits qui traitait de cette question chez les Polonais des années communistes que je rencontrais régulièrement à Poznam et Varsovie. Comme quoi, c'est peut-être à ca aussi que "sert l'écriture", à faire sans cesse la courte-échelle au temps pour se hisser à notre oreille...tant qu'un autre relaye.

Merci Jose.

10/1/2016

 

" (...)Penso mesmo que a aura de um registo sonoro de poesia, a sua capacidade de provocar emoção, deslumbramento, êxtase, epifanias, está em boa parte associada ao que consideramos a sua veracidade. Essa veracidade confirma-se na gravação pela existência de ruídos exteriores à performance do poeta que não são limpos, e por aceitar uma leitura que pode até conter pequenos deslizes, que não são corrigidos. Por uma realidade sonora material (objectos sonoros exteriores à performance e que a invadem) que envolve uma performance frágil e poderosa. Para ilustrar esta percepção recorrerei a uma anedota que conheço há vários e que me foi contada pelo poeta belga Daniel Simon, um amigo querido, acerca da importância aurática do ruído sonoro na gravação, e que Daniel publicou em Quand vous serez – proses poétiques:

 

Dans l’autre siècle déjà des Polonais me faisaient entendre des bandes enregistrées où le souffle rongeait presque entièrement la voix des poètes et ils souriaient de contentement, je ne savais que dire devant tant de gâchis analogique, mais eux souriaient et me demandaient d’écouter et d’écouter encore le souffle, le souffle disaient-ils, c’est le souffle qui nous réjouit à chaque fois, c’est le souffle des bandes recopiées et recopiées sans cesse qui sont pour nous des chants de liberté, le souffle plus que le poète parlait à ces oreilles enfermées dans des glacis communs, le souffle, disaient-ils, est la preuve des copies qui se sont succédé. (Simon, 2012: 67).

 

Porque será que consideramos estas gravações de poesia, às tantas com uma baixa qualidade de som, mais verdadeiras? Será que nos deixam apreciar melhor a poesia? Afinal o que é a voz numa gravação de poesia? “A voz é presença” disse Paul Zumthor numa entrevista com André Beaudet para a Rádio Canadá (Zumthor, 2005, 83). É uma das minhas definições favoritas. Devo apenas acrescentar: é presença auditiva, presença cega, presença não visual. Por isso, uma gravação de voz tem o poder de recriar por si só essa presença. Pode ser sentida de olhos fechados. Ouvir as cassetes polacas, ouvir o o sopro que se acumula com as cópias, é sentir também a presença de outros que antes de nós ouviram esta mesma gravação.

 

SIMON, Daniel (2012) Quand vous serez – proses poétiques. Bruxelles: M.E.O..

Tag(s) : #Articles

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